domingo, 2 de novembro de 2008

Desabafo

Muito de mim é cansaço agora. Muito não, tudo em mim. Mas é cansaço físico mesmo, desses de derrubar a muralha que às vezes a gente acha que é. E quando chega a noite você vê que ainda não acabou, que ainda tem mais uma luta pra vencer, aquela com a sua mente, embora o seu corpo diga que já terminou o expediente, ela ainda está a 300 por hora, e aí começa a mais difícil batalha, você contra você mesmo, você contra as contas do final do mês, você contra aquele problema do trabalho quase impossível de se resolver, e é a sua cabeça que vai rolar, você contra... . Quando enfim você consegue dormir, nem sentiu, os passarinhos já começam a cantar, sim porque aqui eu ainda tenho a dádiva de me acordar ao som dos pássaros, e, com este meu celular ancestral e ultimamente sem som, acaba sendo os pássaros quem me acordam mesmo. Aí o dia exige de você o que você não entrou em acordo no dia anterior. Você pensa em chutar o pau da barraca, mas aí lembra que não tem barraca armada ainda, e sai procurando o que chutar. A raiva aumenta, as pessoas nem percebem, por muito tempo isso me perturbava, agora já não mais. Tudo dá errado -isso é comum a todos- você se conforta. A impressão é que ninguém valoriza o seu trabalho, em casa tem até quem pergunte pra onde você vai, aí você conta até 10 e diz vou pro terceiro expediente, aliviada por ter quem se preocupe com você, mesmo sem ter a mínima idéia do tamanho do pau que você tem que dar em doido, sem nenhuma apologia a violência, isso é só força de expressão. E a força, ela, parece acabar, quando passo pelo ônibus que me levaria pra casa, se pra lá eu fosse, e ainda dá tempo de ver do outro ônibus o motorista da minha linha conferindo os pneus e dando a partida, ô vontade de ir pra casa, fico pensando, mas ainda é o começo. E depois de tanto dizer: vai dar certo, pode, pode sim, tá certo, onde eu assino, você assina aqui, pode deixar, eu faço sim... vai crescendo uma vontade de ser indiferente, esquecer as promessas, e ser igual ao estereótipo, e você acaba pensando que essa história de fazer a diferença é a maior babaquice, ninguém liga mesmo, no final do mês o seu salário ainda vai dar dó até no terceirizado, que, em alguns casos, sem nenhum compromisso, espera apenas por seu vereador. Até que no ápice da sua raiva, no altar de imolação, o balcão, chega aquele rostinho redondo, e com aqueles olhinhos por trás dos óculos me olha e diz: - Tia, tá aqui o papel ó – e puxa um papelzinho todo amarrotado e sujo de dentro do bolso, e continua: - Tá sujo assim, porque eu derrubei no suco. Então você, do alto do seu egoísmo sustentado pela dor nas costas mais violenta de todos os tempos, desaba, recebe o papel e guarda, porque sabe que nasceu pra compreender, mesmo sabendo que receber o papel depois de uma semana do final do prazo já não fará tanta diferença assim. Mas o importante é que ele trouxe, ele acreditou no que eu faço, e a partir dali foi-se embora todo o meu cansaço, e a menina do balcão voltou a sorrir.




































Esse texto, mesmo sem ter quem o leia, iria ao ar na semana passada, mas por um bom motivo não foi. Ele não quer dizer nada a ninguém, apenas me deu vontade de publicá-lo por aqui porque conseguiu representar o meu cansaço dos últimos dias e uma experiência que tive no trabalho na quinta-feira.

E, como não poderia deixar de faltar, mais uns desses meus versos sem graça:




































Eu nunca mais tive tempo
de sentar na calçada
de assistir novela
de fofocar de madrugada
de falar de uma paixão




Eu nunca mais tive tempo
de arrumar a casa
meus livros, meus papéis de carta
de ouvir música sentada
olhando pro teto da casa




Porque eu conto as vezes
que posso sentar
os quilômetros que andei
os minutos que perdi
e o dinheiro que gastei.






Nenhum comentário: