Final de expediente duma tarde que parecia comum, só parecia, arrumei a mesa na qual trabalho, coloquei os papéis na pasta, arrumei a bolsa e saí, havia algo que perturbava minha mente nos últimos dias e saí mais cedo, precisava passar no shopping ainda. Peguei um caminho diferente, precisava de tempo para pensar, pôr as idéias no lugar, entender o medo que me afligia. Passando por uma parada de ônibus me surge um vulto feminino, era Luciana, olhei bem pra confirmar, era ela sim e corri para abraçá-la.
- Luciana!
- Carolina, amiga há quanto tempo!
Não nos víamos desde a última vez que fui a sua casa para fazer um trabalho de um curso de informática que fazíamos juntas, e isso há muito tempo. Luciana era uma amiga que mesmo longe era muito querida, tinha por ela imenso carinho e consideração. Vê-la ali me era surpreso, porém a alegria de reencontrá-la dissipou qualquer indagação. Ela me abraçou e começamos um pequeno diálogo que se mostraria revelador:
- Carol, você está bem, tá trabalhando?
- Naquela loucura de sempre amiga, mas me conta você, como anda, tá trabalhando?
- Não Carol, ainda tô sem trabalho, anda difícil demais, mas to estudando, fazendo faculdade... Amiga, conheci uma pessoa, é um cara legal, carinhoso, atencioso, só que também é muito ocupado, mora num bairro aqui perto, Jardim Arrebol, e deve tá chegando aqui pra me pegar, vamos ao show do Djavan hoje.
- Luciana, que bom, fico feliz por você, ah meu namorado também mora no Arrebol, engraçado, devem se conhecer, você tem sorte, acho que meu namorado nunca me levou no show do Djavan, nem de ninguém, rsrsrsrs. E o que ele faz?
- Ô amiga fica assim não um dia ele te chama, homem é assim mesmo, mas ó meu namorado é jogador de futebol, não é conhecido não mas tá batalhando aí.
Naquele instante um fogo começou a subir pelo meu corpo, minhas orelhas deviam estar vermelhas, o calor que saia do meu hálito não era normal, comecei a tremer e antes que ela falasse mais alguma coisa tratei de despedir-me, ela ainda insistiu num “ô fica aqui pra você conhecê-lo”
_ Lu, tenho que ir ainda vou no shopping, é sério tenho que ir.
O celular dela tocou, era ele, o namorado, dizendo que já tava chegando, naquele instante meu coração acelerou ainda mais, precisava sair dali o quanto antes, e saí. Fui andando meio atordoada com a história, com os pensamentos que durante o mês inteiro me conturbava o senso, parecia até que o tempo havia parado, será?, aquelas palavras “jogador de futebol”, “morador do Arrebol” remoendo na minha mente, até que achei um banco de praça, sentei e liguei pro celular do Marcelo. “Esse telefone encontra-se desligado ou fora da área de cobertura”, a mensagem insistia cada vez que eu tentava, e mais ainda aumentava minha agonia.
Conheci Marcelo há três anos, desde os tempos em que ele jogava nas categorias de base de um time local, sub-dezoito, numa partida que fui assistir, despretensiosamente, arrisquei uma conversa e começamos um relacionamento. Um namoro meio estranho, cheio de idas e vindas. Ele dizia que gostava de mim, e eu que o amava, mas dos dois não havia entrega, essa é que é a verdade. Nesse último ano ele começou a jogar profissional, e o meu trabalho consumia mais que meu tempo, consumia minha vida inteira, assim o namoro foi esfriando, até que nesse fim de ano ele me disse que iria viajar pro Sudeste pra tentar um contrato fora. No começo a idéia me pareceu ótima, mas o comportamento dele começou a me parecer estranho. Mulher é assim, esse negocio de sexto sentido tem sentido, e não é só mãe que tem não, toda mulher tem.
Bom, passados alguns dias a frieza de Marcelo me importunava e me fazia desconfiar de suas ausências, de sua falta de cuidado comigo. Fui à casa de Luciana, tinha medo de descobrir alguma coisa, ela não sabia da existência de Marcelo, que ele era meu namorado, nem ele sabia que ela era minha amiga, nunca toquei em seu nome pra ele. Ao chegar lá ela me recebeu como sempre, alegre e espontânea, minha amiga jamais me enganaria, me levou até seu quarto e mostrou-me a mala em cima da cama, com algumas roupas dobradas e algumas por arrumar.
- Muita bagunça, vai viajar? -Ela se arrumava para um banho, enquanto eu recolhia algumas peças de roupa pelo chão.
- Vou amiga, to indo pra Salvador, com meu amor. -Ela entrou no banheiro e eu, caí sentada na cama. Do banheiro, sua voz confundindo-se com o barulho do chuveiro tentava me falar “vamos viajar juntos, ele vai pra um teste num time baiano”
Minhas lágrimas já molhavam as etiquetas das roupas novas compradas para a viagem, quando avistei as cartas, juntas, num cantinho da escrivaninha, nunca mexi nas coisas de minhas amigas, muito menos nas de Luciana, mas reconheci a letra, era a letra de Marcelo, nervosamente comecei a lê-las, uma a uma, só parando com o grito de Luciana “olha as cartas que ele escreve pra mim, ta aí em cima” A esta altura eu já estava na porta de saída do apartamento de minha amiga, em direção ao elevador, não encontrei acesso, corri às escadas, desci rapidamente, com uma confusão na mente, meio atordoada saí à rua, o dia era claro, o sol ofuscava minha visão e eu não enxergava mais nada, procurei sentar-me no meio fio, respirei, peguei o celular e liguei pra D. Ana, mãe de Marcelo
- D. Ana, é Carolina, D. Ana, Marcelo vai viajar pra onde?
- Minha filha, ele não disse, ele é assim, inventa essas coisas e nem diz pra gente.
D. Ana era uma mulher muito boa, gostava de mim, mesmo eu não sendo a namorada ideal pra seu filho, sempre me tratou bem, sem muitos afetos ou paparicagens, fazia-me ouvinte de suas histórias em sua cozinha e eu realmente gostava de ouvi-la.
- D. Ana seu filho tá me traindo.
Ela lamentou e pediu desculpas por ele, mais tarde o telefone tocou, era Luciana preocupada comigo, eu lhe expliquei a situação, ela se desculpou, não viajou mais com Marcelo, mas soube que ainda ficam juntos, vezes por aí. Ainda tenho a amizade de D. Ana. Quanto a Marcelo...
Ele jamais havia me levado a um show do Djavan,
ou de quem quer que fosse,
nunca me chamou pra viajar,
nem pra ir ali, na esquina tomar um guaraná
nunca, nunquinha,
sempre me negou um pedacinho de sua atenção,
um cantinho do seu olhar,
e eu mendiguei por tantas vezes...
Eu tenho um pedaço de carne batendo aqui ainda, sabia?
E por tantas vezes eu dizia, cantando,
aquela velha música do Leoni:
Por que não eu? ah, por que não eu?
Não era difícil entender, enquanto eu cantava
Em outros braços ele zombava
Me expôs, me revelou, me maltratou
E eu sustentei o não-merecer como resposta até o último dia
Até me convencer que realmente não o merecia
Por instante que fosse, eu não o merecia
Deixa que eu era boba, tola, infeliz
E ainda por cima burra não é assim?
Mas deixa que alguém me disse
Enxugue o rosto menina que lágrima não enfeita não
E há de encontrar alguém que te queira bem
Que passará a mão na tua cintura
E com orgulho caminhará contigo na rua
E quando a preocupação chegar
o primeiro nome lembrado será o teu
e o telefone então vai tocar
e foi assim que aconteceu.
* Essa história é puramente fictícia, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.