domingo, 15 de novembro de 2009

"Hay que endurecer..."

Nunca pergunte se as coisas podem ficar piores, porque a resposta é sim, elas podem ficar bem piores. A vida quer que a gente amadureça a força bruta, e vai nos pregando umas peças, e vai judiando da gente, testando, provando, vai fazendo com que endureçamos e "hay que endurecer".





Nesses últimos dias me entristeci muito, cheguei a dizer que perdi as esperanças, na verdade eu acho que perdi, não consigo ainda pensar diferente com relação a um monte de coisa aí, como eu pensava antes. Minha boca se tornou amarga, e meu coração não sentia mais nada, se tornou em gelo como pedra, eu me tornei como Asafe, o salmista. Não conseguia enxergar, não enxergo ainda, não entendia como você procura fazer tudo direito e não é reconhecido, enquanto o pessoal ta nem aí com nada e recebe tudo, eu invejei o ímpio, sim, confesso, invejei o ímpio em seus caminhos, como tudo vai bem em seus caminhos, não sofrem nenhum aperto, em tudo prosperam, e assim como o poeta disse, meu coração se embruteceu e eu nada pude ver.




Foi aí que perdi a esperança, ao conviver com pessoas completamente inescrupulosas, que não medem conseqüências, que não honram suas palavras, seus compromissos, com personalidade psicopata até, sendo que até o riso, meu Deus, da pessoa, é escabroso, de quem vê o mal do outro e tem prazer. Assim como diz lá em Romanos que nos últimos dias surgirão homens mais amantes de si mesmo, sem afeição natural, sem temor a pai e mãe, sem honra em seus compromissos, meu Deus onde estamos? pensei, chegou esse tempo.




Aí eu fiquei pensando, como tem gente que ainda quer colocar filho nesse mundo? não imagino um pedaço de mim tendo que passar por mãos de pessoas com as quais convivi esses dias, para as quais peço apenas a misericórdia divina para que se arrependam. Não, isso é sério, e quando olho pra muitas crianças e adolescentes com os quais convivo, sabe, vejo que daqui uns anos vai ter muito mais gente assim, e que esta educação que temos aí hoje dificilmente irá mudá-los. Não sabem quem é Deus nem Santa Maria como diz o ditado, não temem seus pais, não temem o Estado, que não pune, que dita uma cultura que nem na sociedade das bactérias existe, da não-punição, e por isso mesmo temos esse monte de gente aí, fazendo o mal aos outros, no trânsito, nas filas, nos ônibus, nos balcões, nos quartos fechados, e meus olhos vêem tudo isso, e não se conformam.




Não adianta processar ninguém, não adianta falar, gritar, espernear, chegaremos novamente ao tempo da barbárie, resolveremos tudo com paus nas mãos, ameaçando, pela força. Não, a sociedade não está evoluindo, está sim, regredindo, meu caro.




E assim, pensando mal do mundo inteiro, achei que havia justiça em mim, que havia bondade em mim, comecei a usar a expressão "tem gente que" em quase todas as minhas frases, como se eu também não fosse "gente que", como se eu também não fosse essa "gente", e em algum momento fizesse parte dela. Enganada estava eu, "pois sou mordomo infiel e não faço mais do que minha obrigação", e isso sem reconhecimento, sem recompensas.




Sim, eu pensei tudo isso, até que, como Asafe, ouvi a voz do Senhor me dizer que aquele que serve não pode esperar reconhecimento, senão de seu Senhor, que tudo o que fizermos nada mais é do que nossa obrigação, o prazer do servo é estar aos pés do seu Senhor, e quando eu desço é Cristo quem sobe, quando há algo de bom em mim, não sou eu quem tenho que ser visto, mas o Senhor, e isso basta pra mim, é do nome dEle que as pessoas se lembram quando olham pra mim, e não do meu nome, é do Senhor que lembram quando olham pro servo, e por isso se diz “não é este o servo daquele Senhor?”


Sim, não há bem suficiente em nós, pois bom só Pai que está nos céus, como disse o próprio Jesus. Se buscarmos em nossa própria justiça razão para que a graça nos alcance seremos infelizes, pois a graça nos alcança justamente por ser graça, de graça, sem retornos, sem reservas, sem condições.



Quanto aos que prosperam, mesmo procurando plantar sementes amargas e ervas daninhas, entendi que Deus faz brilhar o mesmo sol sobre justos e injustos, que o mundo dá muitas voltas, que nada como um dia após o outro com uma noite no meio, nada como esperar pelo velho e generoso tempo, implacável tempo, voraz, que tudo consome impetuosamente, que faz crescer os frutos que mostrarão quem é de verdade e quem é de mentira.




Quando entendi isso meu coração pôde então sossegar, e ver que tudo isso é uma fase vai passar, não dura muito, é só pra testar até onde eu posso suportar, é só pra medir o quanto eu calo, ou pra forçar-me a falar, a gritar...




...a endurecer.



Fel