Hoje eu não quero me assentar à mesa do banquete
Hoje eu só quero te adorar por tudo o que Tu és”

Hoje vim agradecer por ser minha força

Escolheu a melhor roupa, arrumou-se toda.
O cheiro era novo, diferente. Maquiagem – não, ele não gosta – ela também não. Olhou no espelho, nos olhos duros, sempre foram olhos duros, mas agora estavam mais rígidos ainda, quase petrificados, era dor ela sabia.
Era dia dos Namorados, e ela ainda tinha esperança, podia acreditar nas palavras dele, no que mentira nos últimos meses, mas estava disposta a perdoá-lo, queria mais uma vez se declarar, treinou os diálogos, repassando as falas na frente do espelho, parava, olhava, reconhecia, tinha medo.
Desceu as escadas e foi a pé, a casa era bem próxima, logo ali na outra esquina. Durante o caminho ia pensando em como tudo passou tão rápido, em como o tempo não estava ajudando a cicatrizar a ferida que teimava em continuar aberta, mal sabia ela que, logo mais, um dedo invisível reviraria novamente a chaga.
Dobrou a esquina e pasmando se deparou com o casal que mais a frente caminhava, espere, deixe-me descrever:
_ O Rapaz, magro, alto, de andar mole, como sempre teve, com a mão na cintura de uma moça. A moça, proporcional, bonita, de mão no ombro do rapaz.
Hum! É engraçado, mas ela não teve medo, dessa vez foi ela quem caminhou bem atrás, seguindo os passos, só no cheiro, esperando para que ele virasse e olhasse bem nos seus olhos, mas ele não virou, e ainda pôde ouvi-lo sussurrando no ouvido da outra. Ela parou e esperou que o casal sumisse no final da rua, voltou pra casa, lavou o rosto, sentou no sofá da sala, e tirou do peito a sua declaração de amor. Eu nunca quis prendê-lo, eu nunca nem lhe quis assim, pra mim Eu só quero o que é meu e você, ah você é do mundo inteiro E você não tinha obrigação de me querer, nem de olhar pra mim, mas olhou e aí eu me perdi, olhar pra você foi meu maior erro, e o seu, retribuir. Olhe, é certo que as coisas caminharam pra um lugar que eu não queria que chegassem, mas o que posso fazer? Lembra quando me dei conta de que estava me prendendo, ai meu Deus eu estava me apaixonando, de onde estava já não podia mais voltar, eu falava, agora falo o mesmo, só que voltando do caminho. Nada tem mais graça, continuar, muito menos voltar, se eu tivesse uma borracha apagaria tudo e começaria uma nova história, mas agora já não dá, eu sei, e por causa de você eu aprendi a dizer não, eu disse não, os “nãos” que eu me cansei de ouvir, agora são tão fáceis pra mim. Me perdoe, eu sei que já estou perdendo a razão, ainda me pergunto que loucura estou fazendo sabendo que nada vai mudar, mas hoje eu quero que você saiba que nunca será lembrado como tristeza, porque foi de minha alegria razão por muitos dias, quero que saiba que tenho tanta raiva de ainda gostar tanto de você assim, que não existe ninguém aqui agora, só a constatação das últimas coisas que bate à minha porta: eu ainda não te esqueci.
Desculpa, não falo mais nisso