
Sou um guerreiro.Vivo a procura de guerras. Sei que nem preciso, pois já tenho uma Fortaleza, que é só minha, que me guarda e é imbatível.
Mas ao passar pelas terras do Norte avistei uma Fortaleza, pequena e singela, mas imponente, que contradição?! Ela me despertou por ser assim, demonstrar simplicidade, e ao mesmo tempo imponência. Por fora é sem luxo, sem frescura, sem muros altos ou largos, sem muitos aparatos bélicos, só alguns canhões, algumas catapultas.
Mas a fama que corre é que dentro dela mora um mistério. É a força de Resistência da Fortaleza o segredo que passeia na boca do povo em todas as aldeias por onde passo, e é por isso que existem mais guerreiros, não só eu, em busca de invadi-la. Os outros guerreiros tem armas mais potentes que as minhas, são mais experientes na guerra, trazem histórias de velhos combates, de homens sangrando, de lutas com espadas, de piratas, de fogo, etc.
Eu não, não trago uma história emocionante, mas fico calado, ouço, observo, procuro, vigio, para ver a forma como posso me apossar da Fortaleza. Tenho um pequeno exército, na verdade é apenas um amigo desses tantos que achei por esses caminhos de aventuras. É meu fiel escudeiro, para ele digo um pouco quem sou eu. E ele sabe quem eu sou. Não me responde nada, acho que é por isso que somos amigos. Somos apenas nós dois, e às vezes acho que não temos chances nenhuma em relação aos outros guerreiros. Mas mesmo assim eu não desisto. Ah! é mais uma das minhas características, eu sou indesistível.
Já tentei invadir a Fortaleza, mas fui barrado por sua Resistência. Foi em uma certa vez ao observar que alguns guerreiros conseguiam entrar nela sem serem notados. Eles entravam camuflados, pela porta principal, o disfarce servia e a Resistência deixava-os passar sem desconfiança.
Acreditei que poderia também entrar disfarçado pelos portões. Que ilusão a minha! Fui negado, não sei se descobriram o meu disfarce ou se desconfiaram das minhas intenções, mas não pude entrar na fortaleza, o que será que deu errado com o meu disfarce, pensei durante dias. Eu vi os guerreiros não tão bem disfarçados assim, alguns entraram sem nem serem identificados, só pediram e foram atendidos, foram aceitos, entraram e lá e se instalaram.
Eu amarguei durante dias a decepção que me ocorrera nesse evento, sentava-me no monte, junto à árvore, e contemplava a Fortaleza. Às vezes sozinho, às vezes contando pro meu amigo. Confesso que tentei desistir, aí lembrei que eu era um guerreiro, trazia na alma, pobre alma, uma coragem maior até mesmo que meu próprio orgulho. Eu sou indestível pensei e tentei mais uma vez pela porta principal entrar, foi em vão.
Numa outra dessas tentativas, ainda mais frustrante, foi que eu quase morri. Juntei-me a alguns guerreiros mercenários para invadir a tão desejada Fortaleza. Certo guerreiro, “amigo”, disse que gostaria de entrar na luta só pelo prazer de lutar, de conquistar, ele me enganou. Na hora do combate, quando todos estávamos em fogo cruzado com a Resistência que, previamente adivinhou nosso ataque, ele entrou na Fortaleza, e sem eu ver conseguiu chegar lá, não me pergunte como, não houve Resistência, disso eu tenho certeza.
Saí ferido nesse ataque, quase morro é verdade. Quase não me recuperava, meu fiel escudeiro bem que tentou me ajudar, mas não teve jeito. Foram dias de dores, convalescimento, sem falar na frustração, dúvidas, tristeza e decepção. Eu era um guerreiro vencido, ferido e ainda tinha que ver meu “amigo”, agora meu algoz, fazendo parte da Resistência.
Depois de tanto tentar, passei a ignorar a Fortaleza. Quando vinha para os lados do Norte, para a labuta diária no comércio, negociar, já nem olhava para ela, dava uma volta de quase duas horas, pelo monte da árvore, para não ter que contemplá-la tão ostentosa. As forças de Resistência faziam a guarda e eu não podia nem me aproximar.
Assim, foram passando tardes, dias, meses, e nos comércios e nas feiras eu ouvia o murmurinho: prenderam mais um desses guerreiros que tentaram entrar na Fortaleza. São mercenários, que tentam invadir os muros para destruir e apoderarem-se da força de guerra da Fortaleza, diziam as falas dos feirantes, homens simples da região. Surpreendi-me com um que me disse: não há quem intente contra esta Fortaleza, jovem, e saia com vida.
Aquilo despertou o meu desejo de conquistá-la. O desejo que estava tentando adormecer. Voltei ao monte e passei novamente a observá-la, vigiá-la, nos finais de tarde logo após o trabalho, o cansaço por mais que fosse grande não me impedia de ir até aquele monte, sempre acompanhado de meu amigo, eu ia olhá-la, estudar e descobrir outra forma de invadi-la com as minhas pequenas forças.
Passados alguns dias, depois de muita vigia e observação, notei algumas falhas na força de Resistência da Fortaleza, aqui e acolá vejo que não é tudo o que dizem, deixa rastros de dúvidas e às vezes eu penso que ela é pretensiosa. Nem aparenta essa força toda, percebi que eles não maneiam bem as espadas, preferem a vigia, a precaução ao ataque em si. Pensei que isso pudesse ser medo, medo de que descubram que a Fortaleza não é tudo o que as bocas falam por aí.
Ao descobrir seu medo, encontrei sua fraqueza, encontrei mais uma porta, que nem sempre é vigiada, a Resistência não vai lá com freqüência, ouvi alguns guerreiros dizer. Talvez eu tente entrar por esta porta, lá pode se entrar sem ser percebido, é o meio que vejo, vou novamente me disfarçar, e vou pedir pra entrar, depois que tiver dentro pensarei no meu plano B, por enquanto vou tentar apenas entrar na Fortaleza. Quero conhecê-la por dentro, suas armas, embora já conheça algumas, tentarei desarmá-las, arrisco minha vida e a de meu fiel escudeiro nesta empreitada. No próximo encontro trago notícias do sucesso ou do insucesso dessa aventura.
Pausa para um momento de reflexão: Homens são obstinados quando querem algo, fazem de um tudo pra conseguir, mas o que me impressiona nas mulheres é que além de serem obstinadas nunca se dão por vencidas. Para o homem, depois de tentar tudo e não conseguir nada eles desistem e resolvem partir pra outra mesmo com um coração cheio de dúvidas. As mulheres não, só depois de se sentirem aclaradas de todas as suas dúvidas é que resolvem desistir... não, criar um “plano B”.
Trago notícias da última batalha, tentei mais uma vez conquistar a Fortaleza, foi novamente inútil. Caminhei a passos lentos, minha saúde já não era a mesma depois de tantos combates, carecia de forças, forças essas que não vinham. Passei algum tempo esperando o momento, algum sinal, mas não veio, realmente arrisquei muito vindo até aqui, pensei, e quase perco a vida de meu fiel escudeiro, uma irresponsabilidade minha.
O fato é que fui barrado logo na entrada, na verdade eu tinha quase certeza de que isso ocorreria mais uma vez, só fui lá pra conferir, inocente? Nem tanto. Não houve combate, sem armas, sem dor, sem sangue derramado, pelo contrário, foi calmo, nenhuma Resistência, apenas meu fiel amigo foi ferido, na verdade eu o feri, quase precisou sacrificá-lo, mas eu decidi salvá-lo por que ele é muito importante pra mim, ainda mais agora.
À noite, disfarçado, fui até a porta que mencionei, na qual a Resistência nem sempre vai, havia uma fresta por onde pude olhar como era a Fortaleza por dentro, sim, por dentro ela era muito bonita, tanto quanto por fora, olhei pra mim, guerreiro de tantas batalhas e vi que não merecia me apoderar daquele lugar, que com essas minhas idas e vindas dessa vida de aventuras aquele lugar, sob o meu poder, se tornaria vazio e triste. Eu não teria paz se a conquistasse, seriam muitas guerras contra todos que tentassem tirá-la de mim. Decidi está bem assim, decidi desistir.
Naquela noite de uma grande tempestade, de ventos fortes, que quase não cessava, sentei-me ao caminho e, enquanto as águas corriam e lavavam-me as pequenas feridas, pensei em como tudo isso começou. Comecei a sorrir, ali, no meio das águas que se misturavam com minhas lágrimas, sorri, pensei e avaliei que era despeito tolo o meu sorriso, mas passados alguns dias vi que era alívio.
Orgulho ferido, que guerreiro já não se sentiu assim antes? Trouxe meu amigo ao ombro e cuidei de suas chagas. Agora estamos prontos não para conquistar fortalezas, não, não, dessas não mais. Partiremos em uma longa viagem, nos anelaremos a alguns guerreiros que lutam por uma coisa chamada, como é mesmo o nome?
... coração.